• ROCK’N'ROLL, INC. De Woodstock à MTV: o esvaziamento de um gênero que ajudou a mudar o mundo

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    December 16th, 2009Aline Rocharock

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    No período de 1953-1960, os Estados Unidos deixavam pra trás a sangrenta II Guerra Mundial revigorados. Livre da depressão dos anos 30,  a sociedade americana dava uma guinada em direção ao crescimento econômico e o capitalismo se firmava enquanto sistema. Os veteranos de guerra retornavam a suas casas e a promessa de tranquilidade no subúrbio os esperava. A atmosfera de heroísmo pairava sobre os anos dourados.

    A Guerra Fria dividia o mundo de acordo com duas potências: Os EUA e a União Soviética se estranhavam numa rivalidade ideológica cujas consequências poderiam ser inimagináveis. A situação deu margem a excessos nacionalistas como a liderada pelo senador júnior de Wisconsin, Joseph McCarthy: a ‘Caça às Bruxas’.

    Neste contexto podemos entender que

    ‘havia uma América pós-guerra conservadora – bem representada pelo cidadão médio americano (morador de subúrbios, possuidor de um emprego estável, apto para ser incluído na sociedade do consumo) – cujos valores encontravam-se fortemente ligados ao McCarthismo e ao anti-Comunismo, como também a uma rigidez social e a um comportamento conformista (WICKE, 1995, p. 29 APUD CAMPOS, 2009)

    Nos corredores das escolas, onde a juventude dos anos 50 tinha que se enquadrar nos padrões do american way of life, as transformações que ocorreriam nos anos subsequentes tomavam forma. A vida perfeita dos subúrbios americanos escondia uma realidade opressiva e previsível: o futuro dos jovens era a cadeira de chefe de uma fábrica e uma família perfeita. ‘A falta de um propósito comum na vida portanto tornou-se a experiência básica desta geração’ (WICKE, 1990, p. 31, tradução nossa).

    O filme Revolutionary Road é um retrato da vida previsível dos anos dourados

    O filme Revolutionary Road é um retrato da vida previsível dos anos dourados

    A padronização dos costumes, das profissões, do estilo de viver americano seria o terreno fértil para uma revolta musical cujo carro chefe que gerou a popularização de um ritmo que mudaria a história: o rock’n’roll.

    O balanço de um jovem de Memphis, Tenessee foi o estopim da mudança: Elvis Presley materializou o sentimento crescente nos jovens americanos. O sucesso espetacular do astro iniciava a febre de fãs adolescentes e abria espaço para músicos negros como Chuck Berry e Little Richard, numa sociedade marcada pelo racismo segundo a política separate but equal (separados mas iguais) vigente nos Estados Unidos. O sopro de vida do rock dissipando o marasmo dos anos dourados é considerado um ingrediente importante para a luta pelos direitos civis no segregado sul americano. Por ser uma música originalmente negra, o rock causava furor na classe separatista.

    Na época, Detroit tornou-se um centro musical incrivelmente forte, sendo estabelecida ali a legendária gravadora Motown, um berço de grandes artistas da época como Marvin Gaye e Stevie Wonder.

    Acusado de saquear a música negra, Elvis ajudou a minar a segregação

    Acusado de saquear a música negra, Elvis ajudou a minar a segregação

    Nos idos de 59, Elvis se alistou no exército, enfraquecendo a cena. O rock’n’roll já se rendia a cultura do consumo e perdia grande do seu teor rebelde, tornando-se mais conservador e alinhado com os interesses comerciais da época. No entanto, a calmaria durou pouco.

    O Vietnã entra em cena: Uma das guerras mais sangrentas da história punha por terra as ilusões em relação a perfeita vida americana. O massacre de civis vietnamitas e as mortes crescentes de soldados americanos abalavam as estruturas da América. Também nos anos 60 o movimento feminista afirmou-se e a liberação sexual foi pregada pelos hippies. As drogas eram agora um popular meio de busca espiritual.

    O ápice da revolta entre os jovens cansados dos absurdos da guerra ocorreu numa fazenda: O Festival de Woodstock levaria meio milhão de jovens que pregavam a não-violência a reunirem-se. O rock entra em cena novamente como a música do protesto, gerando clássicos como Won’t Get Fooled Again, da banda inglesa The Who. Enquanto Bob Dylan e Joan Baez faziam duros protestos à sociedade materialista por meio do rock folk, os Beatles lideravam a “invasão britância” cantando All you need is love.

    Assim como a própria contracultura encontrava ressonância na Europa, em eventos revolucionários como o Maio de 1968 na França e a Primavera de Praga na Tchecoslováquia, assim o rock ecoava em outros continentes.

    No Brasil, João Goulart era destituído do poder. A ditadura militar e a censura seriam atacados pela inserção da guitarra elétrica em ritmos regionais promovido pelo tropicalismo. A inocente jovem guarda dava lugar a Tom Zé e aos Mutantes.

    Black+Sabbath

    Bill Ward, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Tony Iommi

    Em Birminghan, na Inglaterra, uma cidade eminentemente industrial castigada pela II Guerra Mundial, onde a pobreza e o crime era destino certo para a juventude, a utopia hippie não era boa o suficiente. Cansados do escapismo pregado pelo flower-power, quatro jovens se destinaram a fazer uma música tão assustadora quanto um filme de terror: nascia o Black Sabbath, o precursor do heavy metal (ou metal pesado, uma referência ao som retumbante das fábricas de Birmingham). Segundo Ozzy Osbourne: “O que significa essa história de flores, de paz? Eu não tenho nem calçados”. A aproximação realista dos eventos desastrosos dos anos 60 apresentada pelo grupo culminava com o hino anti-guerra War Pigs: “Políticos se escondem/eles apenas iniciam a guerra/ por que eles deveriam sair para lutar?/ eles deixam isso para os pobres”.

    Os anos sessenta provaram ser a década mais conturbada da história. Além da Guerra do Vietnã, o assassinato de Sharon Tate pela seita liderada por Charles Manson punha a prova todo o progresso científico e superioridade da raça humana. Época sombria esta que, consequentemente, vivenciou uma explosão cultural promovida pelo rock’n’roll. Além de multiplicar-se como música de protesto pelo mundo, os discos mais importantes do estilo foram criados na época, dentre eles: Piper At the Gates of Dawn, Pink Floyd; Are you Experienced?, Jimi Hendrix; Disraeli Gears, do Cream e Sgt. Pepper’s  Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Tempos difíceis provaram ser tempos férteis no território musical.

    Segundo Sarlo:

    ‘O rock foi mais que uma música; moveu-se desde o início com o impulso de uma contracultura que se espalhou pela vida cotidiana. O rock se identificou de modo extramusical: susetantada pela música, a cultura rock definiu os limites de um território onde houve mobilização, resistência e experimentação.’ (1999, p.35)

    O marco da década de 70 é representado pelo protesto político rápido e direto do Punk Rock britânico e seu moto DIY – Do it Yourself (Faça você mesmo), que serviu de base para uma experimentalidade que surgiria mais tarde no rock. No gelado Canadá, o Rush trazia um rock progressivo cerebral.  Misturando com elementos de literatura, cinema e filosofia, o trio desafiava as gravadoras que já insistiam em músicas no formato estrofe-refrão-estrofe e com cerca de 3 minutos de duração. O quarto álbum do grupo, 2112, continha uma música homônima que durava 20 minutos.

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    Em 1979, o Kiss já arrecadava mais de 100 milhões de dólares em merchandising

    Nos anos  80, o rock passou a exercer um importante papel comercial, perdendo muito do seu conteúdo político para ganhar as telas da MTV. O rock era a música do momento. Despida de sua veia de protesto, a música tornava-se um desfile de perucas, popularizando temas que se tratavam de diversão, bebidas e mulheres. O Kiss já ganhava milhões estampando seu logo em diversos objetos de merchandising: de camisetas a rolos de papel higiênico. Os músicos se travestiam, quebravam quartos de hotel, protagonizavam escândalos e apresentavam-se como fantoches da mídia: o estilo já estava desgastado e manipulado. Ser rockstar era a melhor profissão do mundo, a música não mais envolvia os debates políticos que tanto ajudou a disseminar. Paralelamente, um estilo mais pesado nascido na Baía de São Francisco, na Califórnia ainda abordava temas relevantes à sociedade, mas com muito menos espaço na mídia, era o thrash metal liderado por bandas como Megadeth e Metallica.

    Seattle trouxe à tona um novo estilo e talvez a última reviravolta relevante do rock, o grunge. Grunge significa sujeira e era isso que bandas como Alice in Chains, Nirvana e Soundgarden notaram que o rock estava muito popular, muito bonito. Para isso adotaram um visual mais largado e trataram de difíceis temas como a opressão do mundo do entretenimento e a adolescência no fim do século. O grunge já mostrava o jovem perdido em meio à era da superexposição.

    A partir dos anos 2000, o rock se ligou definitivamente ao pop. Salvo algumas exceções; o emo, o britpop, o indie rock, o pop punk, o new metal e o dance punk já nasciam como estilos reformulados de modo a agradar o grande público. Grande parte dos subgêneros que aqui descrevemos ainda continuam fortes, muitas bandas que sacudiram o mundo ainda seguem com um imenso grupo de fãs mas, em termos de rebeldia, o rock se perdeu em festivais enganosos, em grifes de moda e caiu na rede da grande mídia. A crítica política é muito pouca e, quando ocorre, já se encontra nas engrenagens de um esquema de mercado. Num mundo saturado pela informação, assustado pela ameaça do terrorismo e de crises econômicas, a criatividade é anestesiada pela manipulação escancarada da cultura, dos meios de comunicação e da indústria fonográfica. Numa época em que nós mesmos nos vendemos como marcas, os artistas se tornam objetos.

    Um triste exemplo é a tentativa de ressureição de Woodstock: Já se pensava o evento como uma marca. Destituída da relevante característica de protesto, a versão realizada em 1999 foi marcada pela violência gratuita supostamente provocada por artistas como Limp Bizkit e Kid Rock.

    Adorno considerou o estudo das implicação dos processos de mercantilização na prática cultural. O autor acredita que a reprodução musical via rádio ou disco prejudicaria a mesma e acreditava em como a repetição de padrões serviriam apenas para empobrecer um movimento cultural.

    Em 1999, o Megadeth terminou seu set com Peace Sells...'But who's buying?' - Um retrato fiel do festival

    Em 1999, o Megadeth terminou seu set com Peace Sells...'But who's buying?' - Um retrato fiel do festival

    O conceito de ‘indústria cultural’ remete à cultura de massa, produzida de acordos com os modelos econômicos da manufatura. Adorno, de cidadania alemã, parte do fim dado ao cinema germânico – cinema cuja produção aumentou significativamente por conta do uso como propaganda de guerra pelos nazistas. Na perspectiva de Adorno, o pós-guerra (com o boom econômico americano) definiu a filiação da arte ao mercado capitalista.

    Ora, é impossível negar que a produção de grande parte das peças artísticas atuais já nasce como um projeto financeiro. A separação dos filmes americanos em gêneros denota a especificação da fatia de mercado que irá consumi-la. O empobrecimento do ser humano deriva dessa formação de padrões que dá sempre à audiência o que ela quer, nunca algo que a desafie. A arte, em sua grande parte, se confunde com entretenimento, apagando a abstração que deveria causar. Todavia, algo que se mostrou intrínseco na história do rock, foi sua capacidade de desafiar.

    É incongruente se decretar a cultura como morta a tal ponto que se configure um tom de ‘fim da história’ aos assuntos culturais. A banalidade de grande parte das obras que se dizem artísticas não ultrapassa a presença do rock’n’roll como um movimento artístico legítimo e historicamente relevante. No entanto, concordo que os mecanismos de manipulação consumista nos despiram de nossa capacidade de protestar novamente.

    Sites oferecem guias de como se tornar emo: uma lista de itens te garante a rebeldia

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    Ignorada essa generalização funesta, a indústria cultural atualmente exerce um papel importante para o esvaziamento de valores desses movimentos. Ao retirar a rebeldia, a política e a inovação do rock, o que sobra são, sim, grupos formados por fantoches das grandes gravadoras e, que, pouco têm a dizer e cuja duração persiste por, no máximo, meses. A vasta gama de produtos que promete a rebeldia, como se ela também pudesse ser precificada – uma jaqueta de couro vale por um protesto – remete à perda de sentido não só do rock, mas que presenciamos atualmente na religião, no amor, na escola, na família e em outros conceitos outrora intactos. Comprar é um substituto para pensar, sentir e refletir. Por que se debruçar em pilhas de livros sobre a Revolução Cubana, se você pode simplesmente desfilar com uma camiseta que retrata Che Guevara?

    Para Sarlo, essa descaracterização do rock gerou o culto à juventude. Enquanto nos anos 50, os jovens mimetizavam as roupas de seus pais – o rock trouxe o couro, o jeans e tornou a juventude a melhor época da vida:

    ‘Por isso, hoje, tudo pode ser remetido ao rock, na medida em que este se tornou um filão da cultura moderna, e com o desaparecimento de seus aspectos subversivos após a morte de seus heróis ou na emergência de discursos mais piedosos (ecologistas, naturistas, espiritualistas, new age) adotados pelos remanescentes. (1997, p. 35)

    Barbie versão Hard Rock, por que não?

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    As drogas e qualquer outro tipo de experimentalismo subversivo que tenha sido trazido pelo rock é deixado de lado em prol de sua estética e do poder assustador gerado por essa cultura da juventude que se revela, por exemplo, na maturidade precoce das crianças, no desespero face ao envelhecimento que gera filas nos consultórios de cirurgiões plásticos. Esta cultura da juventude curiosamente traz de volta aos palcos grupos de rock há anos desfeitos, esforçando-se para demonstrar a vivacidade de outrora. Uma infeliz metalinguagem. O rock trouxe a juventude à tona, o mercado a tornou obrigatória.

    Seguindo o conceito de Bauman, podemos costurar com o breve histórico acima a liquefação de nossa modernidade. Enquanto o rock mobilizou multidões até ser engolido pela máquina cultural, muito também está se perdendo nos não-lugares do esvaziamento do ser humano. A banalidade toma o lugar do conteúdo. Enquanto se torna cada vez mais difícil a visão de conceitos sólidos, mais fácil fica a destruição do próprio homem como crítico de si próprio e de sua sociedade. Nos tempos de modernidade líquida, tudo que é música se desmancha no ar.

    BIBLIOGRAFIA

    ADORNO, Theodor. 2007. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Editora Paz e Terra.

    BAUMAN, Zygmunt. 2001. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar.

    BERTRAND, Michael. 2000. Race, Rock and Elvis. Chicago: University of Illinois Press.

    CAMPOS, Cynthia de Lima. 2009. Oê, Eu sou mais Indie que você: O gosto e o estilo dos fãs de rock independente como elemento de distinção. 33º Encontro Anual da ANPOCS – Cultura brasileira: Modos e Estilos de Vida.

    FRIEDLANDER, Paul. 2002. Rock and Roll: uma história social. São Paulo: Editora Record.

    KONOW, David. 2002. Bang Your Head: the rise and fall of heavy metal.  New York: Three Rivers Press.

    WICKE, Peter. 1999. Rock Music: culture, aesthetics and sociology. New York: Cambridge University Press.

    SARLO, Beatriz. 1997. Cenas da Vida Pós-Moderna. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.

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2 Responses to “ROCK’N'ROLL, INC. De Woodstock à MTV: o esvaziamento de um gênero que ajudou a mudar o mundo”

  1. gostei muito desse texto.

  2. [...] é uma das coisas mais time-consuming ever. Minha segunda já está em andamento e é baseada nesse texto aqui [...]

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